terça-feira, 7 de agosto de 2012

Sobre Luiz Gonzaga e Vinícius de Moraes

Se me pedissem para escolher entre todos os homens que chegaram ao meu conhecimento, parece-me encontrar seis mais excelentes do que todos os outros. O primeiro é Jesus Cristo, aquém prego como padre. O segundo é Sócrates, aquém ensino como filósofo. O terceiro é Voltaire, aquém leio como bibliófilo. O quarto é Francisco de Assis, aquém imito como estóico, o quinto é Vinícius de Morais, aquém ouço como pianista e o sexto é Luiz Gonzaga, aquém admiro como jornalista.

Entretanto, nesse julgamento, não posso deixar esquecer que os dois últimos são músicos e brasileiros e que deles, principalmente de Vinícius de Moraes, os nossos melhores músicos devem sua arte. Na verdade, frequentemente me espanta que Vinicius de Moraes pôs em voga no mundo, várias personalidades por sua influência, não haja ele próprio recebido dignidade de também ser uma delas. Sendo carioca, diplomata e vivendo antes que a televisão e as rádios de nosso país estivessem estruturadas, conheceu-se seu talento tanto que todos os que depois se propuseram a segui-lo, nunca puderam superá-lo, e, em matéria de poesia, recorreram a ele como a um mestre perfeito no conhecimento de todas as coisas, e a seus livros como a uma sementeira para toda espécie de conhecimento.

Foi contra a ditadura militar que Vinícius de Moraes fez a mais excelente produção de nossa música brasileira “A marcha da quarta feira de cinzas”. Sempre ao lado de parceiros musicais mais jovens, o velho Vinicius tornou madura, perfeita e completa a infância da nossa discografia e de várias outras artes como a poesia. Por causa disso podemos chamá-lo o primeiro e último dos poetas, de acordo com o belo testemunho que suas letras de músicas deixaram dele.

Não havendo ninguém aquém pudesse imitar, Luiz Gonzaga, não pode ser imitado. O excêntrico rei do baião, tendo criado um ritmo próprio com letras e chavões que expressão seu regionalismo e a essência dos homens e, além disso, impôs ao nosso português uma nova linguagem que perpassa gerações e se faz entender com magia e graça. Ainda assim, que glória se pode comparar à dele quando se fala de superação, sofrimento, sensibilidade? Não há nada que viva na boca dos brasileiros como o seu nome e suas obras; nada tão conhecido e tão aceito quanto “Assum Preto”, “Luiz respeita Januário”, “Xote das meninas”, “Boiadeiro”, “Cigarro de Paia”. Quem não conhece “Asa Branca”?

Vinicius de Moraes, também conhecido como poetinha, nasceu em 1913 e morreu em 1980. Notabilizou-se como boêmio e grande conquistador de mulheres, por elas escreveu muitos sucessos. A excelência de seu saber e inteligência o fez rodar mundo, ora como jornalista, ora como diplomata, ora como artista e poeta. O poetinha casou-se nove vezes ao longo de sua vida. Sua obra é vasta e passa pela literatura, teatro, cinema, música e poesia. Sua fama vai além das fronteiras.

Um ano antes do nascimento de Vinícius de Moraes, numa fazendinha ao pé da Serra de Araripe, na zona rural do sertão de Pernambuco, nascia Luiz Gonzaga, filho de Santana e seu Januário que trabalhava duro na roça, num latifúndio, e nas horas vagas tocava acordeão. Foi com ele que Luiz Gonzaga aprendeu a tocar e cantar. Autêntico, Luiz, em matéria de composição, em nada ficou devendo ao pai. Antes dos dezoito anos, teve sua primeira e única paixão: Nazarena. Mas foi rejeitado pelo pai da moça, que não aceitava suas origens humildes. Mesmo assim Luiz e Nazarena namoraram escondidos e planejavam fugir juntos. Januário e Santana lhe deram uma surra ao descobrirem seus planos. O pai de Nazarena jurou-lhe de morte. Revoltado por não poder casar-se e para não morrer, Luiz Gonzaga, fugiu de casa e ingressou no exército, onde passou nove anos e depois viajou por vários Estados brasileiros, passando fome, sede, dormindo no relento e viajando a Pau de Araras. Juntando tudo isso, admitimos que Luiz teve razão ao escrever “Assum Preto”, “Pau de Arara” e “Juazeiro”. E não se pode negar que aja mais de si em suas composições e mais de outros nas de Vinicius de Moraes. Eles tiveram muitas coisas iguais, e Luiz Gonzaga talvez algumas maiores.

Foram dois incêndios ou duas torrentes a assolar a música do século XX no Brasil e em lugares diversos. Mas, ainda que Luiz Gonzaga pelas durezas de seu caminho tenha tido menos estudo que Vinícius de Moraes, sua história contém tanta desventura, tendo coincidido com a vil injustiça do nosso país e da crueldade geral do mundo, que, juntando e pondo na balança todas as coisas, não posso evitar de pender para o lado de Luiz Gonzaga.

Quanto à fama, Luiz, não a tem nem de longe tanta quanto Vinicius de Moraes, pois, ainda que suas músicas não sejam tão finas como as de Vinícius, tinham toda genialidade que se possa imaginar. Como prova de sua virtude, sempre levou aos palcos suas raízes, pois, ainda que não seja compreendida sua arte, ela esboça ousadia e competência e há de ser eterna. Quanto a seu saber, era limitado: nunca falou o português correto e, entretanto, nunca se falou tão bem quanto ele. Pois era matuto, e como falou, ninguém nunca falará melhor. Foi excelente orador e muito convincente como contador de causos.

E quanto a seu comportamento e consciência, superou de longe a Vinícius de Moraes, pois nessa parte, que deve ser considerada, o poetinha deixou a desejar. Em Luiz a inocência é uma qualidade própria, principal, constante, uniforme, incorruptível. Comparativamente, em Vinicius ela aparece como subalterna, incerta, diversificada, frouxa e fortuita.

Os entendidos consideraram Vinícius de Moraes como o grande alicerce de nossa arte musical e poética, dizendo que em cada composição sua se encontra uma qualidade especial que o torna ilustre. E essa consideração, apesar de muito digna, sinto-a um tanto exagerada. Apenas o rei do baião, se lhe dessem um título extraordinário, grande e ilustre, poderia pôr-me em dúvida na escolha de ser chamado o grande alicerce de nossa arte musical e poética.

Oh, que gostoso o tempo que passei mencionando essa dupla de vidas tão nobres. Um, o rei do requinte, da elegância, do aristocrático bom gosto, ele foi como o vinho, deu-nos um prazer mórbido. O outro, o rei do baião, da sensibilidade, da vida conjugada em arte, da raiz de nossa alma, foi como a cachaça, deu-nos a alegria. Quanto a um, não santo, mas homem honrado que viveu a vida mais rica que conheço a ser vivida entre os vivos. Quanto ao outro, em matéria de amor, não teve mais nenhuma namorada, depois de Nazarena, passando a ter algumas amantes ao longo da vida, o que justifica ele “querer ovo de codorna pra comer”. Mas como nem ovo de codorna pode meu problema resolver, inquieto-me em elevar Luiz Gonzaga e Vinícius de Moraes a seus postos e reconhecer-lhes a glória, pois a genialidade os seguia como uma sombra. E em matéria de música, a pujança desse país também morreu, assim como nasceu, justamente com eles.


Durval Baranowske, Filósofo e Escritor








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