sábado, 2 de outubro de 2010

Sobre mim e Sobre todos

Completei 33 anos no último mês de setembro, festa de independência do Brasil.

Desde 1994, quando deixei a minha casa e comecei meus estudos no seminário dos Premonstrateses em Montes Claros (MG), comparto a leitura e a meditação da Bíblia com alguns filósofos. Dois deles em especial: Platão e Nietzsche. Religiosamente, passamos juntos todos esses anos, trocando idéias e angústias. Na verdade, só trocando idéias, pois angústia os dois não sentem mais. Estão mortos. Mas vivem nesse misterioso inconsciente coletivo que é a memória humana.
Aqui, vou confidenciar-me, que em 1997, Li Nietzsche pela primeira vez e toda obra de Platão, escondido dos meus formadores na reclusa e arcaica formação monástica dos Premonstratenses, deitado no chão, à luz de vela, para não me verem lendo livros proibidos. No noviciado Premonstratense, li, refleti e aprendi a conversar com os mortos. Hoje minha estrutura de pensamento é Nietzscheniana – embora sobre Nietzsche eu não pretenda fazer nem um estudo mais sério que lê-lo. Na minha vida de seminarista nitzscheniano tive experiências de Deus. Por ser isso diferente, passei a ficar só e gosto de estar só. Minha espiritualidade é monástica. Não digo nada quando rezo. Rezo e não peço nada. Às vezes me sinto rezando quando ouço música, quando leio um livro, quando tomo o café da manhã. Antes de estudar filosofia, sempre rezava aos santos, colecionava suas biografias e aos 18 anos de idade passei a colecionar seus pensamentos. Quando saí do seminário Premonstratense em 1999, fui roubado no centro de Belo Horizonte e levaram meu caderno de sentenças dos santos, quando veio o convite de uma editora para escrever sobre o que dizem os santos, tive que começar do zero... Mas, depois do assalto, em Belo Horizonte, entrei num outro seminário católico. Estive na Europa, passei pelas escolas de Roma: racionalistas, metódicas, tradicionais. Lá eu perdi a fé. Voltei ao Brasil, estudei mais quatro anos de teologia e fiz a dolorosa experiência de recuperar a fé. Na pastoral, o povo de Deus me ajudou muito, mas graças às releituras de Nietzsche, Platão e a descoberta de Montaigne, eu consegui pensar em Deus rezando. Para mim, fazer teologia não é orar alto, entoar chavões como Aleluias e Glórias. Para mim, pensar sobre Deus é uma oração. Para mim, estar com Deus é sentir a vida de uma maneira pessoal e única. Sentindo a vida devagar, com muito respeito a mim mesmo, eu rezo. Refletindo sobre a vida, eu rezo. Comendo pão e bebendo café, eu rezo. Pensando em Deus, eu rezo. Mas, quando estou nas igrejas e ouço certas orações e repito certos chavões e escuto certas pregações, então, não rezo e entro em crise, mas sempre saio delas depois. É! Procuro estar com Deus, mas parece que Ele tem se ausentado das Igrejas. É difícil sentir seu vento por lá. Recentemente estive com alguns Calvinistas e outros evangélicos, mas, também, o vento de Deus que não sopra por aqui, também não sopra por lá. Por enquanto, vou rezando em casa mesmo, na simplicidade dos meus estudos e do meu trabalho. Quem sabe assim, um dia, talvez, quem sabe Deus, não tenha algo melhor a fazer e venha me visitar, já que na sua casa eu não o encontrei.

Bara Baranowske

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